Quinta-feira, 22.11.12

Guerra de Manufahi

Como tudo começou...

 

A Guerra de Manufahi teve a sua origem na morte do tenente e comandante militar de Same Luis Álvares da Silva.

 

Esta guerra teve vários intervenientes, mas entre eles destacam-se dois protagonistas, quer pela condução das batalhas quer pela influência na história de Timor. Falamos de Dom Boaventura da Costa Souto Maior (régulo de Manufahi) e de Filomeno da Câmara de Melo Cabral (Primeiro governador de Timor nomeado pela República Portuguesa e comandante e chefe das forças durante a guerra de Manufahi).

 

Estávamos em Dezembro de 1911, conta-se que havia vários dias que D. Boaventura não aparecia no Comando apesar de ter sido convocado várias vezes pelo tenente Silva. Dias antes, o comandante mandara à casa do liurai um soldado português, velho no Comando, amigo pessoal e compadre de Dom Boaventura. Esse soldado foi retido e depois assassinado.

 

Na manhã do dia 24 de Dezembro de 1911, véspera de Natal, o tenente Luís estava na sua residência e acabava de tomar banho. Apareceram no comando uns homens mandados por Dom Boaventura da Costa. Um ia amarrado e outros seguiam-no. Davam a entender que iam apresentar uma queixa ao comandante.

 

O Tenente ao vêr aquilo saiu para ouvir a queixa do que ia amarrado. Golpes de catanadas começaram a cair sobre o comandante. Este tentou reagir correndo para dentro em busca da uma arma, sem sucesso.Os homens perseguiram-no e cortaram-lhe cabeça. A esposa do tenente Silva que se encontrava dentro da casa com o filho ainda bebé foi arrastada para fora e colocaram no regaço a cabeça do marido. No interior da residência os timorenses reuniam os móveis sobre os quais colocaram o cadáver do tenente Luís Silva. Entretanto mais três portugueses são mortos, dois soldados e um civil.

 

Não foi por acaso que D. Boaventura mandara matar o tenente Luís Silva. Ele era visto como um homen severo que chegou a esbofetear o irmão de D Boaventura, Dom Vicente. Uma fonte holandesa diz que o oficial português tinha violado a liurai feto, a esposa do régulo D. Boaventura.

 

A convite do irmão do régulo, o Comandante de Fatuberliu Ferreira desloca-se para passar o Natal a Fatumane. O mesmo é morto na ribeira de Sui. D. Boaventura manda um guarda-fio acompanhar a mulher do tenente para Maubisse.

 

Depois dos incidentes ocorridos na tranqueira de Same no dia 24 e 25 de Dezembro de 1911, o governo português prevendo o levantamento e a revolta dos reinos entra em preparativos para mais uma campanha contra Manufahi.

 

Do lado dos combatentes de Manufahi, há muito que os vários reinados planeavam uma revolta. Vários Liurais (régulos) haviam sido contactados, desde o liurai de Raimean, Bubuçuço, Bobonaro, Deribate, Atabae, Atsabe, Cailaco, Ermera, Matata, Punilala, Suai, Leimean, Bibuçuço, Alas, Turiscai, Lequidoe, Cová, entre outros.

 

Os homens estavam armados com algumas armas de fogo, sobretudo as chamadas armas brancas, o diman (azagaia), surik, catana, flechas, parões, facas, aidona (moca, cacete) etc.

 

Construiram fortificações de defesa na montanha de Cablac e nas florestas das redondezas de Same. Os locais de guerra mais importantes dos rebeldes timorenses eram as colinas de Riac e de Leo Laco.

 

No mês de Janeiro de 1912, várias povoações revoltaram-se abertamente contra o governo.

 

Os combatentes de Manufahi e seus aliados exibiam a bandeira azul e branca (Monarquia Portuguesa)  e as forças governamentais expunham a nova bandeira verde-rubra, adoptada pelo novo Regime Republicano.

 

É aqui que entra o governador Filomeno da Câmara, que em resposta a estes actos mobilizou soldados, moradores e auxiliares que atacaram os redutos dos “revoltosos”, situação que foi desde Janeiro de 1912 até Outubro do mesmo ano.

 

O resultado dessa campanha foi a prisão de Dom Boaventura e a sua consequente destituição no dia 26 de Outubro de 1912.

 

Visto de um outro ponto de vista e analisado por quem tem demonstrado grande interesse pela Guerra de Manufahi, conta-se que esta revolta teve vários motivos quer de ordem nacionalista, política e economómica.

 

Desde os tempos de D. Duarte(1895), pai de D. Boaventura, que os povos de Manufahi estavam revoltados contra os Portugueses. A forçada pacificação foi levada a cabo pelo governador José Celestino da Silva. Expulsar os portugueses de Timor era um imperativo.

 

Havia algum tempo que alguns reinos não aceitavam o domínio dos “malae muitin” (estrangeiros, neste caso portugueses). Recordemos o pacto de 1719, cujo actor principal era o régulo de Camanasa, e a consequente guerra de Cailaco (1725-1726).

 

De ordem política, destaca-se a data 5 de Outubro de 1910 quando se deu a implantação do regime republicano em Lisboa. Os régulos timorenses que sempre juraram fidelidade ao rei de Portugal, não aceitaram a mudança do regime e a troca de bandeira. A bandeira real (azul e branca) pela nova bandeira (verde e vermelha). Alguns Liurais temiam que com o novo regime em Portugal,  faria com que fosse destituídos e perdessem as regalias.

 

Conta-se que quando em Outubro 1910, os régulos foram a Díli para assistir à cerimónia da implantação da República, que já havia um pacto para uma possível revolta. E que esses régulos eram incitados por timorenses assimilados ou civilizados, entre os quais se contava um mestiço chamado Domingos de Sena Barreto que era filho de um goês e de uma chinesa. Estes foram incitados por europeus ligados à loja maçónica de Díli e que estavam descontentes com o Governador.

 

Da parte das autoridades portuguesas, forjou-se um outro motivo. A implicação dos holandeses que eram monárquicos e que queriam também expulsar os portugueses de Timor, para poderem dominar toda a ilha.

 

As revoltas que ocorreram em Timor, nos reinos das Províncias do Bellos e de Servião, tiveram a sua origem principal na cobrança de impostos. Em 1911 o governo ia aumentar os impostos.

 

Por exemplo, a capitação (tribute cobrado à cabeça) deveria passar de uma pataca para duas patacas. O corte de uma árvore de sândalo seria taxado de duas patacas. Os coqueiros e os gados seriam recenseados. Seria estabelecido um imposto de 5 patacas aplicado sobre os animais abatidos por ocasião das cerimónias (enterros, construção de uma lulic e realização de estilos).

 

Estes foram os principais motivos de descontentamento por parte dos régulos que depois se uniram em guerra contra as autoridades.


Mapa Distrito de Manufahi

1500 convidados vão participar na Cerimónia do Dom Boaventura

 

A comissão do evento dos 100 anos da revolta de Manufahi, Dom Boaventura, indica que vão participar 1500 convidados dos distritos, nas cerimónias na base de Luak, aldeia Dotik, suco Daisua, sub-distrito Same do distrito de Manufahi.

O técnico superior do Ministério Estatal, Lino de Jesus Toraxão disse aos jornalistas que o Estado teve a iniciativa de organizar e planear o programa da história da luta do Dom Boaventura de 1912-1974 até à luta pela independência de Timor-Leste.

O responsável salientou a importância de relembrar a história sobre a revolta do Dom Boaventura em 1912 para que as novas gerações saibam como tudo aconteceu.

Os convidados serão recebidos pelas três principais pontes. Pela ponte de Aiasa receberão os distritos de Bobonaro, Suai e Ainaro.

Na segunda ponte irão receber os distritos de Viqueque, Lospalos, Baucau e Manatuto.

E na última ponte os convidados que vêm de Oecusse, Dili, Aileu e Ermera.

SAPO TL com Suara Timor Lorosa’e

Powered by:

SAPO Timor

Vídeo Herdeiros Manufahi

Novembro 2012

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
24
25
30

Posts recentes

Editor convidado

Hercus dos Santos

tags

subscrever feeds

blogs SAPO