Guerra de Manufahi tornou trabalho obrigatório para todos os timorenses

A guerra de Manufahi, liderada pelo rei D. Boaventura, foi a primeira grande revolta contra a presença portuguesa em Timor-Leste e teve como consequência o trabalho obrigatório para todos os timorenses.

 

Iniciada no natal de 1911, quando o rei de Manufahi, Boaventura da Costa Sottomayor, mandou executar o comandante militar de Same, no sul da ilha, o tenente português Luiz Álvares da Silva, e o comandante de Fatuberliu, a guerra só terminaria em outubro de 2012.

 

Apesar de o motivo nacionalista ser um dos mais apontados para o início do conflito - o pai de D. Boaventura já não concordava com a presença portuguesa no território - a implantação da República em Portugal e motivos económicos também podem ter estado na origem do conflito.

 

Segundo o ex-bispo timorense Carlos Filipe Ximenes Belo, no livro "Guerra de Manufahi", editado este ano pela diocese de Baucau, os liurais timorenses (autoridades tradicionais) não aceitaram o fim da monarquia por terem jurado fidelidade ao rei de Portugal, nem um eventual aumento de impostos.

 

A revolta terá "provocado a morte de 15 mil a 25 mil" pessoas, escreve Ximenes Belo, e mudou a vida dos timorenses, que passaram a ser obrigados a trabalhar e a pagar impostos, depois de Boaventura da Costa Sottomayor se ter entregado às autoridades portuguesas a 26 de outubro de 1912.

 

Segundo o historiador Réné Pélissier, "foram efetivamente os timorenses que submeteram Timor por conta dos portugueses", porque nem todos os liurais apoiaram a revolta de D. Boaventura.

 

"Lutou sozinho, apoiado apenas pelos seus homens de Manufahi (talvez uns cinco a seis mil)", escreve Carlos Filipe Ximenes Belo.

 

O destino dado pelas autoridades portuguesas ao liurai de Manufahi não é conhecido, mas a memória do homem que, empunhando a bandeira da monarquia portuguesa, lutou contra a República de Portugal, não foi esquecida e permanece imortalizada numa estátua à entrada de Same, a cerca de 100 quilómetros a sul de Díli.

 

É também em Same que na quarta-feira, as autoridades timorenses comemoram o centenário da revolta de Manufahi, com a condecoração de Boaventura da Costa Sottomayor e com a inauguração de um novo monumento ao que consideram ser o primeiro herói timorense.

 

MSE //HB

 

Lusa/Fim

24.11.2012