Discurso de S. E. Presidente Taur Matan Ruak Same - 28 de Novembro

 

 

 

 

Excelências,
Povo Amado de Timor-Leste:

Começo por abraçar todos vós, povo de Timor-Leste, nesta cerimónia em que assinalamos os 100 anos do falecimento do liurai Dom Boaventura e os 37 anos da proclamação da independência.


Abraço os filhos e filhas de Manufahi, terra de Dom Boaventura e do proclamador Xavier do Amaral, e agradeço a todos a hospitalidade e a forma calorosa como acolhem tantos convidados, nacionais e internacionais.
Vejo com satisfação que, pela primeira vez, comemoramos o 28 de Novembro num distrito, fora de Díli. Também pela primeira vez, participam nas comemorações os anciãos dos 13 distritos, sob o lema Nahe Biti Bo’ot - Esquecer o Passado, Olhar para o Futuro. Saúdo os anciãos e a unidade em torno do futuro de Timor-Leste.

Estamos a comemorar acontecimentos da história que tiveram grande importância na formação da identidade da nação timorense.
Em breve, vamos também comemorar os 500 anos passados desde o primeiro encontro de timorenses e portugueses, cujos missionários começaram por partilhar a fé cristã com os nossos antepassados. Do longo contacto com Portugal e os portugueses, a nossa identidade guardou no coração o Cristianismo e a Língua Portuguesa.

A Língua Portuguesa une os timorenses a uma família de povos irmãos, que nos deram a amizade e apoio internacional na luta de libertação. Depois da restauração da independência, continuaram a acompanhar-nos e a apoiar-nos na construção do Estado. Saúdo o Chefe de Estado de um país da CPLP, o senhor Presidente Jorge Fonseca, de Cabo Verde, que nos deu a honra de vir a Same, associar-se à nossa comemoração.
Evocamos a luta do liurai Dom Boaventura contra o poder colonial. A luta de Dom Boaventura, embora tenha lançado um desafio poderoso à administração colonial, não teve o consenso dos reinos e foi, na verdade, o primeiro passo de um longo caminho.
A aspiração à liberdade na nossa sociedade não morreu com Dom Boaventura e foi a nossa geração que teve o dever sagrado de realizar, finalmente, esse sonho.

Em 1974, a liderança da Fretilin veio aqui, visitar e ouvir a viúva de Dom Boaventura – um gesto que mostra a força da ideia deste liurai, sessenta e dois anos após a sua morte. Conta-se que a viúva de Dom Boaventura, já de idade avançada, comentou para os visitantes de 1974 que “os loricos voltaram a cantar”, significando a renascença da esperança e da alegria que o novo nacionalismo trouxe ao coração dos timorenses.
Na realidade, tivémos de lutar ainda outros 24 anos para os loricos poderem cantar em liberdade. Mas nesta luta, o povo esteve unido e firme. Foram 24 anos de luta por uma conquista que já tínhamos feito, 24 anos em que partimos à reconquista da independência. A condecoração do saudoso Nicolau Lobato a título póstumo com a Ordem de Dom Boaventura é uma homenagem à sua liderança decisiva e à inspiração que representa, para toda a nossa geração e as gerações futuras.

Em 2002, estávamos já unidos num projeto nacional novo, e estavam ultrapassadas as divisões do passado.
Ganhámos a independência porque aprendemos a estar unidos. Como afirmei anteriormente, da nossa história e da minha experiência na luta, retiro a lição de que a divisão entre timorenses facilitou a ocupação, no passado antigo e no recente. A unidade do povo conduziu às vitórias, mesmo quando tudo parecia estar contra nós. Timor-Leste venceu pela unidade e firmeza do seu povo.
A Restauração da Independência, há 10 anos, que abriu o caminho à reconciliação, nasceu de um ato democrático – o referendo de 1999, imposto pela vontade forte e o sacrifício do nosso povo.

A paz que alcançámos e a reconciliação nacional que realizámos são essenciais para consolidar a estabilidade e atingir os objetivos do desenvolvimento. Foram também indispensáveis ao processo da perfeita inserção internacional do país. Timor-Leste, a primeira democracia nascida no século XXI, realizou uma inserção regional e internacional bem sucedida.
A política de reconciliação permitiu-nos, também, construir, desde o princípio, boas relações de vizinhança, amizade e cooperação com os países da região, incluindo os vizinhos mais próximos.


Construímos fortes relações com a Indonésia e a Austrália, a nível bi-lateral e multi-lateral, que contribuem para o reforço da segurança e a estabilidade regionais e para o combate e prevenção da criminalidade transnacional na região.


Temos relações bi-laterais dinâmicas com todos os vizinhos da ASEAN, em especial as Filipinas, Malásia, Tailândia e Singapura. Queremos aprofundar as nossas relações regionais, com a entrada do país na ASEAN. A restauração da independência alargou a cooperação com os países irmãos da CPLP, organização a que Timor-Leste terá a honra de presidir no biénio de 2014-16.


Temos relações estreitas com a China e os Estados Unidos – cuja Secretária de Estado Srª Hillary Clinton, honrou este ano Timor-Leste com a sua visita; e também com o Japão, República da Coreia, Nova Zelândia, Brasil, Cuba, Portugal, Irlanda, a União Europeia e os outros Estados que a compõem. Renovo as minhas felicitações pela atribuição, este ano, do Prémio Nobel da Paz à União Europeia.


Este Nobel corresponde ao reconhecimento do papel insubstituível da União Europeia – e das Comunidades Europeias, que a antecederam – no desenvolvimento da cooperação pacífica entre Estados e na construção, desde há 60 anos, de uma zona de segurança e bem-estar na Europa como nunca existira, a qual tem impacto positivo alargado nas relações internacionais.


Quero manifestar o meu reconhecimento aos países europeus e outros parceiros de desenvolvimento que contribuíram ou contribuem para a realização dos nossos projetos, através das Nações Unidas, da UNDP e outras agências internacionais e a nível bi-lateral.

Timor-Leste e as Nações Unidas estabeleceram uma parceria exemplar. Cumprimento o senhor Finn Reske Nielsen, representante em exercício do Secretário-Geral Ban Ki-moon e o pessoal da UNMIT pela boa forma como está a decorrer a retirada faseada da missão.
A cooperação estreita com as Nações Unidas vai continuar, sob novas formas, adaptadas à situação de paz e estabilidade que alcançámos e com foco no apoio ao reforço institucional e ao desenvolvimento económico.


Excelências,
Povo Amado de Timor-Leste:


A unidade do povo foi a condição estratégica da vitória e da restauração da Independência. Hoje, a unidade continua a ser a condição estratégica para o êxito do nosso desígnio nacional e a construção do futuro.


Lutámos para conseguir mais segurança e bem-estar para os timorenses. Chegou agora o tempo de dar sentido pleno à independência e, para garantir mais segurança e bem-estar, precisamos de desenvolver o país.


Timor-Leste tem muitos recursos. Mas para aproveitar esses recursos e tornar o nosso país uma terra mais segura e próspera são necessários a unidade do povo e muito trabalho. Como vos disse quando tomei posse, as dádivas da natureza têm de ser regadas com o suor do nosso esforço. No passado, a vitória exigiu sangue e luta. Hoje, a vitória exige, de todos nós, suor e trabalho. Para vencer as novas batalhas precisamos de tempo, de unidade de propósito e do trabalho de todos.


As tarefas que temos pela frente não aparecem feitas sozinhas. Todos os cidadãos têm de contribuir.
O Estado deve melhorar urgentemente as nossas escolas. Mas sem a mobilização das famílias para apoiar a educação das crianças, a escola não terá os melhores resultados.


O Estado está a alargar a rede de cuidados de saúde. Em 2013, vamos ter próximo de mil médicos timorenses a trabalharem em todo o território nacional. Mas sem a mobilização das famílias, não é possível reduzir os mosquitos e as picadas, nem garantir a limpeza das casas e do ambiente das aldeias para reduzir as doenças e melhorar a saúde da população.


O investimento na agricultura nacional, para o aumento da produção e a conservação e comercialização de produtos timorenses, trazem maior segurança alimentar ao nosso país e são mais-valias fundamentais para o reforço da soberania e a redução da dependência económica. Mas para darem resultado pleno, os investimentos têm de envolver a participação dos próprios agricultores.

O nosso desenvolvimento requer maior atenção às zonas do país onde os serviços do Estado ainda não chegaram. Temos de investir em pólos de desenvolvimento em várias regiões, para criar empregos e estimular as economias locais. As estradas têm de melhorar rapidamente. Temos trabalhar para trazer aos distritos infraestrutras com qualidade, água de qualidade, saneamento, eletricidade, internet, escolas melhores.
Só a mobilização dos cidadãos e das comunidades locais, pode ajudar a assegurar que os investimentos feitos são bem implementados e as infraestruturas e serviços do Estado bem aproveitados.


A participação dos cidadãos é indispensável para o alargamento do setor privado da economia e só ele terá capacidade para gerar os postos de trabalho de que o país precisa. Os jovens, os veteranos e outros grupos com condições para serem mais ativos e dinâmicos não estão plenamente integrados na economia nacional. A sua inclusão é indispensável ao nosso desenvolvimento.

O povo não é simples espectador do desenvolvimento do país. O povo tem de tornar-se o autor e responsável do processo de desenvolvimento ao serviço da comunidade. Para mobilizar os cidadãos e a sociedade civil precisamos de justiça. Temos de aproveitar os recuros do país e temos também de redistribuir a riqueza com justiça.


Para ganharmos as batalhas da segurança e do bem-estar do país, precisamos de trabalhar com honestidade e viver com simplicidade. Devemos respeitar os valores tradicionais, ao mesmo tempo que tiramos vantagem dos novos conhecimentos da ciência e tecnologia para desenvolver o país e melhorar o bem-estar.


Apelo a todos para trabalharmos unidos com seriedade, honestidade e capacidade de sacrifício, para usarmos as riquezas da Nação para desenvolver verdadeiramente a economia, reduzir a pobreza e construir um país melhor, mais seguro e mais próspero.

 

Que Deus abençoe o povo de Timor-Leste e todos os presentes.
Muito obrigado.

 

Fonte: Presidência da República de Timor-Leste

Foto: Lusa@ António Amaral