A Guerra de Manufahi e a Independência - por Hercus dos Santos

 

A história da colonização dos europeus no mundo começou por três motivos importantes: a evangelização, o comércio e o poder. Estes três motivos eram como se fosse o “motor” que empurra os navegadores a descobrir novas terras e novos mundos. Era a época dos descobrimentos.
O espírito dos descobrimentos em si era fruto de uma época importante que o mundo europeu atravessou. Estamos a falar sobre o Renascimento. Um período que marca o fim da Idade Média e início da Idade Moderna. Uma altura em que os europeus começaram por desenvolver novas artes, ciências e filosofias. Uma época de grande êxito científico, arte e filosofia que permitiu aos europeus ter uma nova visão do mundo, que permitiu aos europeus, começar os descobrimentos e chegar também até Timor.

Mesmo em Timor já houve um comércio esporádico com os chineses, uma ligação com o reino de Majapahit e até alguns europeus já lá chegaram antes. Mas, os missionários dominicanos foram os primeiros portugueses a ficar e a estabelecer os contactos com os reis locais. Esses missionários funcionavam como ponte de ligação entre a monarquia portuguesa e os reis locais. Eles, além de baptizarem os principais do reino e a população, serviam como administradores portugueses no território de Timor. Em 1562,  Frei António da Cruz mandou construir a fortaleza de Solor um edifício que funcionava como um  sinal do início do domínio da colonização portuguesa na ilha de Timor.

A colonização portuguesa, como qualquer colonização do mundo,  trouxe algo de bom e algo de menos bom. Foi com a colonização portuguesa que se consolidou a legitimidade da existência de um país com o nome de Timor-Leste. Os dois timorenses laureados do Prémio Nobel da Paz, Dom Ximenes Belo e Dr. José Ramos Horta vieram ao público a defender claramente essa ideia. Dom Ximenes Belo no prefácio do seu livro diz que “Se no passado todos os Liurais tivessem conseguido expulsar os Portugueses, Timor seria parte dos domínios dos Holandeses e mais tarde, parte da Indonésia”.

Enquanto o Dr. Ramos Horta na entrevista a Cristina Buarque diz que “por causa da colonização portuguesa nasceu esta nação que se chama Timor-Leste. Sem a colonização portuguesa, não saberíamos o que seria o Timor Leste hoje. Podia ser indonésio, podia ser holandês, podia ser australiano.”

O lado negativo da colonização era o sofrimento do povo causado pela cobrança de pesados impostos e de trabalho forçado. Esses eram os principais motivos da tentativa da expulsão dos portugueses de Timor iniciada em 1719 , com uma aliança dos Reis timorenses para expulsar os portugueses de Timor.

A partir desse momento em diante houve sempre revoltas em todo o território. Por isso, do meu ponto de vista, é preciso saber a data dessa aliança estabelecida entre os Reis de Timor para pudermos comemorar também como uma data importante em Timor-Leste.

 

A Revolta de Manufahi

 

 

A revolta de Manufahi de D. Boaventura, em 1911,  também tem como causa estes dois factores principais. Já o seu pai, dezasseis anos antes, organizou uma revolta contra o governo português, em 1895, pelas mesmas razões.

 

A guerra liderada por D. Boaventura durou um ano e provocou entre 1500 a 2000 mortos,  segundo o livro de D. Ximenes Belo intitulado “Os Antigos Reinos de Timor-Leste”.

A revolta de Manufahi tem grande dimensão no território de Timor. Podemos considerar que a revolta de Dom Boaventura é a maior de revolta em Timor-Leste e simboliza a consciencialização para uma identidade própria timorense , uma nação e um povo livre e independente.

Daí que no inicio do movimento anti-colonial os intelectuais timorenses que estiveram na sua origem tenham considerado que a sua luta pela independência era inspirada na revolta de D. Boaventura de Manufahi. E como um acto simbólico, marcaram um encontro com a viúva de D. Boaventura.

 

 

A partir de 1975

Em 1975, a maioria das famílias reais de Timor que sofreu por causa da colonização portuguesa abraçou o movimento anti-colonialista e tornaram-se  membros da Fretilin. Pelo menos foi assim que aconteceu, no reino dos meus antepassados, Funar, um reino considerado revoltoso no mapa das revoltas de Portugal e que em 1907 estava marcado para ser dizimado pelas tropas portuguesas. A minha família tanto do lado paterno como materno, por terem um familiar , D. João da Cruz ,  aprisionado em Ataúro, fazia parte da Fretilin , tal como a família de D. Boaventura.

Nesse sentido, presto a minha homenagem ao D. João da Cruz, rei de Funar, da Casa Real de Manehi’ak, que foi aprisionado em Ataúro. Qual era a verdadeira razão da sua captura e do seu aprisionamento na ilha de Ataúro cabe apenas aos meus tios, irmãos da minha mãe, a saber. Mas a verdade é que o filho de D. João da Cruz, que era o primo do meu bisavô, e que estava a estudar no Colégio de Lahane, desapareceu. Enquanto o pai de D. Boaventura antes de fazer revolta mandou raptar o seu filho, o futuro D. Boaventura, desse mesmo colégio para o reino de Manufahi, afim de ficar protegido das represálias da revolta.

Sei que a História da colonização portuguesa em Timor é composta por revoltas, traição, acusações falsas, aprisionamento e morte dos que não favoreciam o poder do governo português. Mas não se pode esquecer que Portugal sempre assumiu o seu dever em defender a auto-determinação de Timor-Leste. Ou seja a Revolução dos Cravos que foi liderada por capitães do exército português, num âmbito do domínio da política da esquerda teve como um dos principais objectivos a auto-determinação dos povos colonizados.

Em 1975, o processo de auto-determinação em Timor-Leste foi “interrompido” pela invasão da Indonésia. Portugal, sem demorar, logo apresentou o caso de Timor na Assembleia Geral das Nações Unidas.

A resistência timorense ficou assim sob sombra da bandeira da diplomacia portuguesa no mundo. Foi Portugal na representação dessa luta resistência timorense que assinou o Acordo de 5 de Maio com Indonésia sob intervenção das Nações Unidas.

Na história da colonização, de bom ou de menos bom, tudo começou pelo espírito dos Descobrimentos que surgiu dentro da época do Renascimento. Não se trata aqui de apurar a Verdade das coisas, mas apenas de contar a História. E esta é uma tentativa de juntar as peças espalhadas da realidade passada , num determinado tempo e  espaço e daí esperamos que possam tirar o proveito para o bem de hoje.

Timor-Leste hoje é livre e independente fruto de todos que deram a sua vida pelo nosso país para fazer erguer Timor-Leste como um país igual aos outros do mundo. Saber honrar os heróis e todos os que lutaram pela Independência do país é algo bem nobre dos cidadãos e do Estado. Obrigado


Bibliografia:
Belo, Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, SDB, Os Antigos Reinos de Timor-Leste, Reys de Lorosay e Reys de Lorothoba, Coronéis e Datos, Edição Tipografia Diocesana Baucau, 2011.


Marques, A. H. de Oliveira, História dos Portugueses no Extremo Oriente, Fundação Oriente, 3º volume.
PELISSER, René, Timor em Guerra. A Conquista Portuguesa 1847-1913, Editorial Estampa, Lisboa, 2007.


Internet
http://revistaestudospoliticos.com/timor-leste-dez-anos-depois-da-independencia-entrevista-com-ramos-horta-por-cristina-buarque-de-hollanda/